Lose Yourself Here

A Chama e o Carvão – Príncipe

Acabou já por ter sido no ano passado (em dezembro de 2017!…) que Príncipe – nome artístico de Sebastião Macedo – lançou o seu primeiro álbum de originais, entitulado «A Chama e o Carvão». (E que não se estranhe o nome «Sebastião Macedo» já que o mesmo integra a já «conhecida» banda «Ciclo Preparatório» –  que têm 1 álbum lançado, datado de 2013).

Numa fase inicial desta «dissecação musical»  o ouvinte encontrar-se-á sempre acorrentado a leves sentimentos melancólicos  proporcionados, não só pela poderosa lírica do autor, como também pela instrumentalidade que o mesmo impõe ao longo das 10 canções que alicerçam o referido LP.

Se o objetivo desta crítica fosse descrever o projeto em análise numa única palavra, a escolha não seria díficil: optaria pelo termo «saudade»; vocábulo que define um sentimento transversal à existência do Homem, mas que só encontra uma associação léxica concreta na língua portuguesa. É nessa onda que Príncipe, no seu albúm de estreia, alcança um êxito louvável: com sucesso, o músico conseguiu conjugar o fado saudosista à alternativa portuguesa. Daí, surgiu uma «aliança brutal», que corresponde, certamente, a um dos mais originais projetos nacionais lançados nos últimos tempos. É que não é todos os dias que surge uma construção musical capaz de fazer com que dois ecossistemas musicais totalmente diferentes – neste caso, o pop e o fado – interajam de forma tão harmoniosa e equilibrada.

A primeira música do álbum é a «Dalí». Nessa faixa, o artista assume vontade de se desprender da vida que até hoje foi vivendo: o mesmo deseja viver expressamente num quadro surrealista, onde os limites físicos – como o tempo e a sucessão dos dias e das noites –  não imperam.  A faixa número dois – a «Desejado» – dá ares de «Lusíadas»; é impossível o ouvinte não associar a letra da mesma à época dourada dos Descobrimentos portugueses. Na terceira música do trabalho, «Cabeças de Vento», Príncipe faz uma bonita homenagem à música portuguesa, na medida em que o título da mesma é uma adaptação da canção «Cabeça de Vento» que, depois de composta por Armando Machado e Linhares Barbosa, foi «popularizada» por Amália Rodrigues – quem mais?

As restantes canções do albúm seguem o mesmo registo: todas elas podem ser descritas como criações sinceras e limpas do artista, este que não perde nem um verso nem uma nota para confessar ao ouvinte os seus maiores lamentos, medos e preocupações. As 10 canções do albúm acabam por ser autênticos poemas. (Pessoalmente considero que Príncipe «se habilitou a atingir», neste seu primeiro trabalho a solo, um nível liricamente «perfeito» (esta é uma posição subjetiva, porém).

Na «Dois Terços do Que Sei», o sujeito lamenta um amor perdido – talvez para sempre. (Nesta faixa, João Figueiredo, na guitarra portuguesa, acompanha Príncipe.) Nota para o título da música número 7 («A Chama e o Carvão») que dá, justamente, nome ao albúm em análise.

A oitava canção («O Duelo») casa a musicalidade pop lo-fi do jovem músico com um dos poemas mais conhecidos – e reconhecidos – da lírica nacional; Príncipe «dá-se ao luxo» de incluir no «outro» da «O Duelo» o poema «Cântico Negro», da autoria de José Régio. Assim, acabamos por estar («quase») perante um dueto em que o pujante poema de José Régio acaba por dar força às motivações de Príncipe. Assim, acabamos por estar perante uma criação (não apenas «musical»; acima de tudo, «artística») sublime.

Nas duas últimas faixas do albúm («Toda a Beleza» e «Luz Cessar Fogo», respetivamente) deparamo-nos, mais uma vez, com tudo aquilo que Príncipe nos oferece ao longo de todo o seu projeto: líricas e instrumentalidades ordenadas e muito bem conjugadas. 

Concluindo, este primeiro projeto apesar de nunca perder a sua forma de «albúm de iniciação», transcende, em larga escala, essa premissa, tamanha é a qualidade e, acima de tudo,  maturidade do projeto apresentado. Com «A Chama e o Carvão», o jovem músico disse «PRESENTE!»; marcou uma posição no panorama musical nacional de um Príncipe que regressa depois de alguns anos desaparecido com os Ciclo. 

E nós (e os nossos ouvidos) por cá continuaremos, esperando desejosamente por mais trabalhos de Sebastião Macedo, o novo príncipe da música portuguesa.

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