Lose Yourself Here

Capitão Fausto – O Nosso Tributo

Decidimos que era hora de quebrar o silêncio. Depois de quase um ano de existência e já passando a centena de artigos e nenhum escrito a propósito de uma das bandas mais incontornáveis da atualidade da música Portuguesa. Para os que pensavam que éramos daqueles hipsters de ferro quente que deixaram de os ouvir quando “ficaram famosos” enganem-se. Somos apenas fãs delicados que sentimos que um artigo sobre uma banda destas precisa de tempo e de mais do que uma perspetiva para ser bem exibido. Por isso juntei-me ao Bernardo e desenvolvemos o tributo possível a Capitão.

“GAZELA” por Bernardo S. Gonçalves

                                                      

Crescemos. Aprendemos. Morremos.

Mas sobretudo crescemos! Amadurecemos. Até aos 50 acalmamos, já passamos a primeira crise hormonal, mas enquanto podemos andar por aí com vida louca porque não? Temos regras em todo o lado! É errado fazer muita coisa mas acima de tudo é errado não fazer nada. Está escrito, não há como dar a volta a isto. E temos que nos adaptar, senão, pouco “sucesso” teremos. A pergunta levanta-se:

Será que temos liberdade para dar um toque nosso à vida?

Já houve muita gente muito mais dotada do que nós a reflectir sobre isto, a saber expressá-lo melhor que nós, por isso, mais vale usar a nossa cabeça com palavras de outros por vezes…

E “A verdade é que a verdade nem sempre é verdade/ E que o mundo ainda tem de crescer” .

Estas palavras fazem algum sentido para vocês?

Era aqui que queria chegar. Provavelmente para todos, podia ser qualquer um de nós a dizer isto, talvez não o fizéssemos de forma tão poética e fluída, mas sentimos o mesmo certo?
É aqui que entram os Capitão Fausto nas nossas vidas.

Não sei quanto a vocês, mas quando penso em bandas icónicas como Beatles, The Doors, Rolling Stones, Oasis, Nirvana , não penso só na sua música, mas em todo o movimento que se gerou à sua volta.

Jovens debaixo de pontes nos subúrbios com phones nos ouvidos a escrever no seu pequeno caderno pequenos excertos do que ouvem.
Hyppies a ver céu cor-de-rosa a dançar em cima de uma nuvem.
Adolescentes fechados na sua garagem com uma coluna barata a tentaar imitar os seus ídolos.

Perceberam a ideia.
E Capitão Fausto criaram o seu movimento. De repente, damos por nós e estamos num palco principal de um festival a ouvir música portuguesa e sabemos as letras do inicio ao fim. E não falamos de música popular, falamos de boa música. Composição com uma estrutura bem delineada, até nos devaneios.

2011, onde estamos nós? Será que ouvimos muita música portuguesa até este ano? Não é que não haja qualidade, mas porquê que não a valorizamos como deve ser?
Gazela vem dar uma grande lufada ar de fresco na nossa mente portuguesa pouco nacionalista. Rock com o toque psicadélico, com a nossa língua. A língua mais bonita. Temos aqui uma receita que pode ser mal interpretada, arriscada, mas a cada música vamos enterrando um bocadinho mais da nossa cabeça, de história em história. De amor se fala, seja ele daquele em que beijamos ou do que só temos que nos rir e beber cerveja. Ridicularizadas são as nossa cabeças e os nossos pequenos conflitos de dia-a-dia E reparem, se de cabeça quente entrámos neste mundo, levamos logo com o João e com a sua “Música Fria”para nos deixarmos ir. Riqueza poética não falta ao seu vocalista Tomás, que de uma forma moderna põe o português que ouvimos a ecoar por aí nas ruas a parecer bastante mais apetecível. Isto associado a uma melodia que tem tanto de certinha como de libertadora. Dou por mim e tenho multidões a dançar ao meu lado, ONDE ESTOU? Não sei sobre que influências extra, mas a principal é a música, e não acredito que haja coisa mais bonita do que isso. Afinal de contas é nosso, os Capitão Fausto são nossos!

 

“PESAR O SOL” por Jaime Pignateli

 

 

 

Soubesse o Mundo todo, a língua Portuguesa como sabe a Inglesa e garanto-vos que este “Pesar o Sol” pesaria em qualquer ranking de bom gosto. Primeiro de tudo, é um álbum, uma viagem, uma história. E deve ser escutado e e respeitado como tal. Nem todos assim o são, às vezes mesmo por escolha ou simples desleixo do artista, mas neste caso, e nota-se bem pela introdução tanto da primeira canção como a mesma enquanto inicio do álbum em si que é um certo conforto que os Capitão tentaram instaurar então com um psicadelismo chicoteante que aparece tão depressa como desaparece e que vai suavemente deslizando pedaleiras adentro ao comando de El Salvador na bateria. Um delírio de som de seu nome “Nunca Faço Nem Metade”, um típico titulo de Capitão que critica millennial com a razão na boca depois de tanto terem feito pela música em português.

Com a beleza da língua veio a beleza do Rock Espacial dos 60 e 70 que voltaram pela mão de muitas bandas do Rock Moderno que apareceram no final da última década, com alta influência na vibe Australiana de Pond e Tame Impala, e que os Capitão Fausto brilhantemente começaram a pegar neste disco e que têm vindo a personalizar de forma eximia. Em “Litoral” o orgulho de ser Português está patente na lírica como nesta nova interpretação do Rock cantado na mesma língua, que em 2014 era ainda um passo arriscado senão muito bem cantado.

A voz de Wallenstein quase tão leve e espacial como as guitarras compactuam perfeitamente em “Tui” na qual os infinitos gritos por “Voltar” podem levar um principiante a chamar esta canção de “mais uma parecida com Tame” quando na verdade num espaço de 45 segundos só nesta musica conseguem soar consecutivamente a Doors, Black Sabbath e acabam realmente em algo aproximado a algo que hoje reconheço mais em Capitão do que em Tame Impala. Sinceramente porque eles quiseram alinhar o psicadelismo em Portugal, liricamente superior aos Tame Impala se é para comparar, e personalizando cada vez melhor instrumentalmente, algo que já me recuso a comparar por os ver apenas como colegas de equipa e não rivais. Finalmente, os Portugueses têm mais tendências de influenciar os Australianos do que vice-versa historicamente!

Toda esta minha conversa torna-se controversa em “Flores do Mal”, umas das minhas canções preferidas deles, extremamente similar instrumentalmente em alguns bridges com Tame Impala, mas que de certa forma é tão diferente por ser deles e tão bem executada em todos os aspectos que o melhor a fazer é mesmo desconectar do Mundo e ver cada música deste álbum como elas são, originais, e deixar as comparações em paz! Até porque se formos mesmo aos primórdios do Psicadelismo, enquanto género, nos vamos cruzar com o eterno José Cid e os seus 10.000 anos.

A musica que nomeia o álbum acaba por ser uma transição da primeira para uma segunda parte do mesmo novamente reforçando a sua estrutura homogénea. A mudança é patente tanto na corrida que a bateria começa assim que a “Célebre Batalha de Formaria” toca. Novamente uma das minhas favoritas, pela constante mudança de ritmo que tanto pauta esta banda e que tanto gosto dão nos seus concertos. As guitarras estão ao máximo e com as pedaleiras bem organizadas e os sons que vêm das imensas “Ideias” que se juntam com estas cinco incríveis personalidades musicais unem-se em harmoniosos coros num constante ritmo de bi-aceleração que pauta este psicadelismo Faustiano em “Pesar O Sol”. A desconformidade e a constante procura pela grandiosidade da música Rock é patente em “Prefiro Que Não Concordem” na qual me perco com o instrumental que pauta o último minuto da mesma. Finalmente a Épica “Maneiras Más” que não só tem um dos melhores refrões da banda como marca para mim um início bem assente de Fausto em todo o lado. Com esta musica ilustram na minha opinião um álbum pautado de cores psicadélicas e gritos por revolta que impuseram de facto com o lançamento deste primeiro álbum, para mim, penso que por gosto pessoal, sem duvida o melhor deles até agora devido a maturidade que apresentaram neste principio tanto quanto a força com que se apresentaram desde sempre. O solo de teclado desta precisa musica não é deste Mundo, a linha de baixo soa demasiado doce, a guitarra penetra mais no cérebro que no ouvido e acabamos por derreter com esta música e alargar esta mesma pedra com “Lameira” um final necessário para reequilibrar as contas e deixar um toque de nostalgia mesmo que seja a vigésima vez que percorro esta bonita viagem chamada “Pesar O Sol”.

 

“OS CAPITÃO FAUSTO TÊM OS DIAS CONTADOS” por Bernardo S. Gonçalves

 

Os Capitão Fausto já não estão na moda pois não? Têm os dias contados? Então porque não derreter um bocadinho a melodia, apimentar um pouco mais a letra e acrescentar nostalgia como ingrediente especial.
Não é uma crítica dizer que este é o albúm mais pop dos nossos amigos. Rádios, concertos por todo o lado e consigo ainda ouvir os gritos das fãs na primeira fila. É a febre Faustina. Novelas com a sua banda sonora. Quase que arrisco dizer que o parque de estacionamento de certas discotecas em Vilamoura tinha algumas músicas a passar nos seus famosos botellóns . Será isto mau? Não necessariamente, não neste caso. Mas é incrível pensar na quantidade de seres que foram atingidos, todos nos identificamos com alguma parte deste álbum, todos.

Alguns dos mais fervorosos revoltaram-se um pouco até. Mas gostava sinceramente de perguntar a estes mesmos, qual deles não ficou com a letra a ecoar na massa cinzenta? Tudo o que é demais acaba por enjoar um pouco, e com a quantidade de vezes com que somos bombardeados acabamos por deixar o nosso gosto um bocadinho farto, e admito, isto estava a acontecer comigo também. Até que consegui finalmente perceber o significado deste álbum por inteiro. Não minto, foi há bem pouco tempo, e peço que se ponham na minha posição.

Amanhecer no Lux. Benjamim e outras caras bem conhecidas da música portuguesa passaram também pela mesa, até mesmo Capitão Fausto. E no meio daqueles raios de sol já com uma quantidade de copos singnificativa ouço o ínicio irreconhecível ” Se me tiras o Ar/ A ti, tiro-te a vida” e uma maré de felicidade e nostalgia inunda todas aquelas caras. Não há ninguem que não se tenha lembrado daquele dia de verão a voltar da praia com esta música no carro ou de alguém pendurado num candeeiro a dançar isto. Cada um com a sua memória. Não é A Música do álbum na minha opinião, mas foi claramente a que atingiu mais seres vivos.

Não há grande palavras para além do sentimento que é ver a música Portuguesa a elevar-se tão alto.

 

Agora vem 2018, álbum no final próximo ano. Cada um teve a sua musicalidade, sendo que cada um tem uma linha que nos transporta para o seguinte. Estamos ansiosamente à espera para ver o que vem aí.

Ainda importante de referir, caso não conheçam, todos os projectos que há destes Senhores, alguns dentro do mesmo género, outros com uma liberdade um pouco diferente. Modernos, Cuca Monga, Bispo, dêem uma vista de olhos, vale a pena.

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