Lose Yourself Here

Conversa com Luís Severo

Quiosque na Liberdade, depois de encontro no mítico S.Jorge, foi mais próximo do Tivoli, onde atuou no dia seguinte, que nos sentámos com um graduado em Sociologia que dá pelo nome de Severo mas que disso tem pouco. Na verdade, o Luís foi muito do que estava à espera e foi revelando uma identidade pessoal muito próxima da musical o que permite um intimismo diferente num concerto ao vivo, como veio a provar no dia seguinte. Nessa manhã quase tarde, que ainda não o era por estarmos de estômago vazio, Luis estava calmo. E é essa mesma calma constante com um presença quase que espiritual e sempre com um novo pensamento a propôr que se manifesta tanto na sua música como se manifestou nesta conversa.

No seu primeiro álbum, lançado em 2015 quando tinha apenas 23 anos, os tons do baixo eram mais sonantes, a sua voz prolongava a dor um tanto mais de incertezas da vida que levavam por maus caminhos de um ser humano à procura de respostas. A música “Santo António” é uma dor na minha alma como poucas e é essa intensidade que passa tanto na música como pessoalmente, este novo pop-icon Português que já demonstrava uma forte influência do fado na maneira de pensar a música e a vida. E só assim o defino numa expetativa que o Pop Português se torne assim tão bom e seletivo. É mesmo uma “Cara D’Anjo” que se apresenta, bem magrinha como todo ele, o que torna curiosa a amplitude da profundidade da sua voz.

A guitarra da “Nita” é uma doçura musical que alinhada com uma certa lamechice lírica faz uma perfeita combinação que desponta um tom diferente neste primeiro álbum. Finalmente é com essa mesma delicadeza que Luís impõe uma balada tão doce quanto uns “Lábios de Vinho” especialmente se for do Porto. Já no segundo álbum, com a ajuda dos Cuca Monga, especialmente de Manuel Palha que diz ter-lhe “posto os pés na terra”, Severo pegou perfeitamente na bagagem do primeiro álbum e explorou perfeitamente a sua voz num tom mais fadista, que tanto adora. A favorita é Argentina Santos, contemporânea de Amália e talvez ofuscada pela mesma de acordo com Luis, é ela que realmente lhe deixa a lágrima no canto do olho. Outras influências foram as músicas que a sua mãe ouvia, que começou a vasculhar quando entrou no secundário e onde encontrou Dylan e Beatles, as bases.

É mesmo no tom de fado que se apresenta no seu segundo álbum, este lançado em 2017, com “Amor e Verdade”, onde se nota também uma clareza vocal que não era tão notável no trabalho anterior. Há também já nesta primeira amostra uma tendência nova ao refrâo mais orelhudo que me faz creres então nesta promissora carreira visto que todos precisamos de um refrão para entoar na cabeça quando estamos no trânsito e não há melhor que este “Uuuuhh” para esse efeito. Há uma atenção ao detalhe diferente que complementa a música do Luis de maneira muito orgânica como novos elementos instrumentais notáveis também nos backing vocals, provando que apesar de tudo não está “Tudo Igual”.

Há também um novo impulso de bater o pé e até talvez dançar bastante ao ouvir “Escola”, o seu maior sucesso que me trás outro dos sentimentos principais associados à música de Severo que carrega esse quase fado-pop nostálgico e que tem sem dúvida as minhas malhas favoritas de guitarra do Luis complementado com um teclado espacial e claro está, um poema bonito. É de imediato que se ouve a sua mais importante balada e também mais bonita carta de amor, com “Meu Amor”. Uma boa cura para a minha neura tem sido “Cabeça de Vento” onde encontro semelhanças com a minha deixando um pequeno sentimento de alívio. Tanto a trabalhar, como a ver o Mar e até talvez a beijar a música de Severo é sempre “Boa Companhia” tal como este humilde entrevistado revelou ser. Sim, com 25 anos a humildade é patente e admite ter de “tocar mais que os outros” para lançar uma música o que demonstra também a sua dedicação profunda à música. Esta apareceu na sua vida nos seus 10 anos quando os seus pais foram chamados à escola por um professor o achar um prodígio musical! Senhora sua mãe, ainda recuperando o fôlego pensando que o então ainda mais pequeno Luis teria feito malandrice, colocou-no no conservatório de música onde entrou como prodígio mas se provou medíocre. Abandonou a escola e a música até à adolescencia. Já nesta altura a entrada de prodígio associado a uma certa fama não lhe agradava. Esta patente timidez leva a que a fama seja uma situação incomoda e quando comentamos com ele a nossa ideia de que deveria haver mais proximidade do artista ao público de forma a retirar o pedestal ao primeiro foi com alegria que recebeu a mesma.

Foi com algum “Lamento” que nos despedimos com um “Até Amanhã” promissor, de um concerto com uma preparação diferente. Aquele seria o concerto da sua vida, não só por ser gravado e no Tivoli, mas porque iria tocar quatro músicas suas dentro de uma em quatro blocos, isto de forma a ter apenas quatro “blocos de palmas” para dez a doze das suas dezasseis canções lançadas. Foi então com enorme prazer e deslumbre que o vimos com “Olho de Lince” na noite de 25, onde se apresentou a solo com um piano e uma grande vontade de tocar. Foi o momento mais bonito, delicado e intimista do meu Mexefest e foi um prazer conhecer a personagem por detrás de Severo.

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