Lose Yourself Here

Filho da Mãe – “Água-Má”

“Não consigo dominar

  Este estado de ansiedade

  A pressa de chegar

  Pra não chegar tarde.”

António Variações

Ao fim de tantos anos, poucos somos os que perceberam realmente esta letra embora todos a saibam de cor. Prazos?! “É para ontem!”. “O próximo concerto é noutro palco, despachem-se!”. “E o artigo? Onde anda?”. Estamos sempre com tanta pressa, pouco aproveitamos o que temos à frente. Tenho 23 anos, não sou Aristóteles, mas já consigo pôr a cabeça a funcionar de vez em quando! E há por aí um regra moral qualquer que me dita a não fazer as coisas sem significado, em vão. E por isso quisemos ouvir, re-ouvir e ver ao vivo até escrever esta peça.

Não digo isto por algum problema pessoal ou chatice de vida. Não me revejo em nenhuma das características acima mas por ser este apenas o maior inimigo do Rui (Filho da Mãe). A pressa. A falta de atenção. Começo por admitir. Já o conhecia à algum tempo e não o tinha ouvido bem o suficiente até uns dias antes desta entrevista. E absorveu-me. Os phones entraram, Lisboa suja e barulhento ficou em “mute” e só aquele guitarra estupidamente bem tocada ecoava nos meus tímpanos. Sabemos com certeza que é músico! Melhor, começou como arqueólogo até perceber que o melhor achado que alguma vez fez foi mesmo a sua guitarra. O instrumento pelo qual vocaliza todo um universo que ao vivo coabita com o público de forma tão harmoniosa como poderosa. Apesar disso, é certo que nem todos apreciam. Quem admira Carlos Paredes admirará o Filho da Mãe que a par de O Gajo têm vindo fortemente honrando o génio já defunto. Mas o mais incrível no Filho da Mãe é a facilidade. Com que toca, com que se adapta ao público que tem e como passa a mensagem que tem a passar sem uma única palavra.

Públicos. Em festivais costumam ser bastante heterogéneos com fãs de diversas bandas que acabam por apenas ir ver dois nomes e vêm cinco sem nunca quererem os outros três. Infelizmente, num concerto em que o silêncio absoluto é o mínimo respeito que se pode demonstrar com este artista, não é fácil que o mesmo se cumpra. Vimos infelizmente isto acontecer no Festival Impulso nas Caldas da Rainha onde claramente 40% do público estava na traseira  a falar e os outros 60% a delirar com o Rui. Eu fazia parte dos 60, como devem imaginar, e depois de ter falado com ele entendi a “amargura” que de vez em vez transmitiu por esta infelicidade, da mesma maneira que apreciei que o Filho da Mãe não quer muito saber de muito mais do que a sua guitarra. E isso é maravilhoso.  Um auto-didata que tem espalhado o boato de ser dos Açores apesar de não ter qualquer afiliação ao arquipélago, é um homem bastante cru que transmite essa mesma crua pureza na guitarra como já não se ouvia à muito tempo. E é exatamente isso que ouço na música dele. Uma transparência tal que permite variadas interpretações de uma mesma música que nos leva a considerar a quantidade de universos criados num único álbum. Tudo isto se resume a uma coisa. O seu novo álbum, “Água-Má”, é a conclusão. Ouçam-no. De seguida marquem  na agenda um dia para o ouvir. Terá alguns concertos que deixamos abaixo pelo Verão afora. E pensem: “Este gajo a tocar assim guitarra deve sacar poucas gajas deve…”.

 

Um abraço e enquanto Português um Obrigado por esta bonita “inovação” no panorama atual Rui!

Poster by Filho da Mãe

 

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