Lose Yourself Here

Nick Suave: “I Speak Rock & Roll”

Depois de um ótimo almoço no “Café com Calma” em Marvila, onde a carteira não sofre nada, foi nessa mesma pérola lisboeta que me sentei na esplanada a tomar café com Nick Suave:

Comecei por lhe chamar “Rei da Margem Sul”, ao que respondeu “Qual Rei?! A Margem Sul não é uma monarquia”. E foi com este tom de humildade que se estendeu a entrevista. Nick, também conhecido até completar o 4ºano de escolaridade por Carlos Ramos, é um daqueles verdadeiros amantes e difusores do Rock&Roll. Nesse mundo é mais conhecido por Nick Nicotine, apesar de ter começado a fumar apenas após esta nomeação, feita por um colega de banda. Agora perguntam-se alguns: ” Mas Rei de quê?”… Conhecem o Barreiro Rocks decerto! Pois este senhor é diretor. Se não conhecem vão a edição deste ano que vale muito a pena. Mas devem conhecer Nicotine’s Orchestra, The Act-Ups, Los Santeros, Bro-X, The Jack Shits, e se não conhecem… Andam a dormir!

Este álbum que me levou a conhecer esta adorável personagem foi o seu 57º álbum. Não conheço muitos artistas para além do Manoel de Oliveira com tanta obra divulgada em Portugal! Para além disso esta foi uma da maiores mudanças de estilo musical que adotou, logo quando pretende apresentar a sua personagem a solo! E não o poderia ter feito de forma mais sincera. Neste primeiro compêndio pegou em canções já escritas em 2011, na altura até em Inglês, e libertou-as ao público na sua lingua-mãe. “Perdido”, o single de apresentação que não nos sai da cabeça à semanas, era para ser “Frustrated” e só por isso ainda bem que ficou nesta bonita língua. Apesar disso, ao perguntar qual a sua língua favorita para a música, este esticou o braço e mostrou esta sua tatuagem: “I speak Rock&Roll”. Sempre quis fazer uma e nunca encontrei nenhuma com verdadeiro significado, mas sem dúvida que esta assenta a Nick como uma luva.

A primeira vez que me cruzei com este trabalho só me veio à cabeça um pensamento: “Isto é Popalhada da boa e em Português! À quanto tempo!” mas a verdade é que as suas inspirações são muito mais do que isso. Motown e o Rock&Roll dos 60 são o principal preceito para esta bonita obra, na qual Mick Collins é a maior influência. A voz não era um dos seus atributos conhecidos, visto que em bandas prévias era mais na zona instrumental que se destacava, mas ao descobrir este talento foi com grande sabedoria que o soube aplicar ao seu projeto individual.

Já perceberam, o disco é bom e vale a pena. O Nick é simpático e considero-o um dos Pais do Rock&Roll alternativo em Portugal nos últimos 20 anos, não só pela qualidade mas pelo impacto e desmesurável apoio que lhe dá todos os dias. “Passo ainda hoje várias noites sem dormir. Ainda no outro dia acabei um concerto em Aveiro às tantas e tive de descer imediatamente para o Barreiro porque no Domingo, no meu estúdio (sim, ele também tem um dos estúdios mais icónicos Portugueses) tenho lá os miúdos a ensaiar de graça e eles precisam de mim lá”. A isto já não soube bem responder, uma pessoa com este amor à música até podia tocar Reggaeton que teria o meu respeito. Mas a verdade é que este senhor é tudo menos isso. Aliás, até é bastante critico desses mesmos meninos mimados do comercial. E percebe-se. Trabalhou para ter tudo o que tem na música e é com um brilho nos olhos de orgulho e um pouco de cansaço que se queixa da falta de apoio do Estado à música alternativa, quando o “bailado e o cinema são considerados, por lei, reis”. Já em jeito de provocação lancei um “Mas quem trabalha por gosto não cansa…” ao que respondeu “Ai cansa cansa!!” em jeito de desabafo.

No finalmente, perguntei como de costume, se tinha um palco de sonho em Portugal que ainda não tivesse alcançado. A resposta foi categórica. “O coliseu! Mas para chegar aí, é preciso ….” Aquilo que já sabemos. É preciso toda a máquina industrial da música, que leva quase 25 anos a batalhar, na esperança do alternativo e do independente ser tão grande ou maior que esse lixo comercial que para aí anda (opinião minha). Em conclusão apenas lhe confessei a curiosidade que tenho em conhecer a “Hey Pachuco!” o seu estúdio e editora, que ainda vem com todas aquelas boas raízes que tanta falta fazem hoje em dia, do puro e sujo Rock. Uma das conversas mais agradáveis e motivadoras que tive em 45 minutos, de um homem que lutou com tudo o que tinha pela música e que continua sempre a lutar por ela mais do que pelo seu próprio sucesso, enquanto mantém a humildade de um verdadeiro gentleman.

É por gente e música desta que existimos!!

 

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