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O Terno – Melhor do que Parece

A música brasileira pode ser entendida como a «prima» da música portuguesa. Apesar de estarem separadas por um oceano imenso, as duas expressões musicais encontram-se «eternamente» unidas por um operador comum, a língua portuguesa. O tom quente e melodioso das sonoridades brasileiras são por todos conhecidas (e reconhecidas). Mas essa não é apenas uma característica una e singular da bossa-nova, (o «expoente máximo» da cultura musical brasileira): é identificável, por exemplo, também no rock e na alternativa pop canarinha – no fundo, nas áreas que à Just Musically Speaking interessam.

Descobri o trabalho dos «O Terno» há relativamente pouco tempo. Andava eu a navegar pela página de Spotify dos Boogarins até que «descobri» um outro projeto que, a partir da primeira audição, me prendeu: o «Melhor Do Que Parece» da autoria dos «O Terno», claro está. «Melhor Do Que Parece» é o terceiro LP da banda paulista, tendo sido lançado em 2016. Este projeto de 12 canções foi, há dois anos, amplamente recebido pela crítica brasileira. Antes desse projeto, a banda já havia lançado dois álbuns: em 2012, o impressionante «66» e, em 2014, lançam o «O Terno». O grupo, que foi criado em 2009, é atualmente formado por 3 músicos: Martim «Tim» Bernardes na guitarra, no vocal e no piano; Guilherme D’Almeida (o «Peixe») no baixo; e, por último, Gabriel Basile na bateria – apenas desde 2015, porém. O referido projeto é iniciado pela faixa «Culpa», uma canção que, apesar de ser relativamente curta (tem 2 minutos e 48 segundos apenas ), é rica em detalhes musicais identificáveis nas leves guitarradas e nos coros harmoniosos e equilibrados que alicerçam a mesma.

De seguida, seguem-se as faixas «Nó» e «Não Espero Mais», respetivamente. A primeira segue um registo «celestial» alcançado pela harmonia vocal de Tim e pela entrada crescente de notas de orgão harmoniosas e equilibradas. A segunda é acompanhada também pelo mesmo orgão e pelas mesmas guitarras. No entanto, nessa faixa, os dois instrumentos revelam uma energia superior e uma dinâmica crescente, fazendo com que «Não Espero Mais» seja uma das canções mais irreverantes e fortes de todo o projeto.

A sensiblidade musical d’Os Terno regressa rapidamente na quarta faixa do projeto, em «Depois Que a Dor Passar». O elevado sentido de harmonia e proporcionalidade que esta canção apresenta faz-nos associar a mesma às sonoridades mais «light» do pop-rock dos anos 60/70 – nesta sede, não consigo deixar de associar os instrumentos de cordas e os coros prolongados (ao máximo!) registados em «Depois Que a Dor Passar» às sonoridades mais sinceras criadas, por exemplo, pelos The Beach Boys; a influência da banda norte-americana n’Os Terno não pode ser ignorada.

A quinta faixa do álbum é «Lua Cheia». Guardo particular interesse pela mesma devido à lírica da mesma, visto que o poema que dá «corpo» à música é um autêntico reflexo dos desabafos mais sinceros do autor; a musicalidade, porém, também não deve ser esquecida. A sexta faixa, que marca a «metade» do projeto – que é formado logicamente por 12 criações musicais – é «O Orgulho e o Perdão».

A sétima faixa é «Volta». Numa posição totalmente subjetiva, confesso que foi essa canção a (principal!) razão pela qual me interessei tanto pela musicalidade dos O Terno, tamanha é a sua beleza e a sinceridade (quer instrumental, quer lírica). No fundo, «Volta» é um lamento amoroso, sincero e honesto, que deve ser escutado e atentado sempre mais do que uma vez.

A oitava canção do álbum é a «Minas Gerais». Nesta, Tim, tirando partido da sua voz sensível e sincera, revela o seu «amor» pelo estado de Minas Gerais. Se «Volta» é o reflexo do amor que uma pessoa sente por outra, «Minas Gerais» é o espelho do amor (e da saudade) que uma pessoa também «se habilita» a sentir em relação a um lugar físico no mundo. A nona faixa é a «Deixa Fugir»; a décima é a «Vamos Assumir». Ambas são, nova e expectavelmente, trabalhos liricamente transparentes e musicalmente enérgicos, onde os momentos de percurssão, os instrumentos de corda e de sopro se revelam muito eficientes – isso se atentarmos, sobretudo, na «Deixa Fugir». A décima primeira faixa é a criação mais curta do projeto – até podemos considerá-la um «interlúdio» que, fazendo a ponte entre a décima canção e a última canção do projeto (a décima segunda, portanto), estabelece que a «A História Mais Velha do Mundo» – que é justamente o título da faixa em análise – é «amar e ser amado».

O álbum termina com a canção «Melhor Do Que Parece», que acaba, assim, por «dar» título ao álbum. Cumpre referir que a última faixa do álbum é também a mais «longa» do mesmo (conta com 6 minutos e 10 segundos). Nessa última canção, identificamos as várias características que, pontualmente, foram sendo identificáveis ao longo de cada canção considerada individualmente: a bateria continua forte, a lírica sincera e as notas das guitarras impetuosas e agressivas. No entanto, num misto de confusão e angústia, o universo vocal desta última faixa encontra-se – certamente «de propósito» – distorcido. A voz de Tim, num registo crescente até ao término da canção, fica «confundível» com uma imensidade de «ruídos» (originados pelas tais guitarradas!) que «explodem» sucessivamente até ao final da faixa. Ainda assim, considero que a última faixa do álbum respeita o trabalho dos O Terno realizado ao longo de todo o LP, visto que nos momentos iniciais da mesma, a harmonia e a sinceridade – tantas vezes por mim referidas – encontram-se «bem presentes».

Os portugueses descobriram as Terras de Vera Cruz no longíquo século XVI, no entanto, grande parte da atual cultura pop/rock musical brasileira continua por descobrir e por ser «conhecida». Assim, ficarei ansiosamente à espera do próximo projeto dos O Terno e das demais bandas canarinhas!

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