Lose Yourself Here

Os Velhos

Uma página de diário camuflada de crónica musical? Porque não? Porque terá de ser a música apenas música? Porque terá de ser o artigo musical só um artigo musical? Porque terão de ser “Os Velhos” só uma banda? Não serão eles escritores? Poetas também? Não será esta a homenagem certa ao homem apaixonado? Sou um ateu convicto mas tem de existir alguma coisa que nos ultrapassa na vida. Na música, “Os Velhos” ultrapassam-me.

Quem são vocês? O que andaram a fazer? Porque é que não apareceram numa daquelas insónias em que só queremos descobrir uma coisa nova de que gostamos realmente? Porque é que não vos ouvi por esses festivais fora? Terá tudo uma razão de ser? Estranho…

Estranho como damos significado a certas coisas. Estranho como os nossos gostos se moldam sempre com influência de quem nos é próximo. Seja por querermos ser diferentes da nossa família ( já aconteceu a todos a certa altura certo?), seja por querer estar mais perto das pessoas que amamos. Desculpem-me esta lamechice mas se calhar estou a ficar um velho lamechas. Oxalá, ficasse como estes. Eles sabem dizer as coisas. E isso é importante, saber exprimir-nos, quando e como. Como é bom saber comunicar. Com gritos serenos e assertivos ou com riffs de guitarra mais depressivos. Que bom era conseguir falar assim.

Pouca música portuguesa é tão portuguesa e tão boa. Não arrisco dizer que são os melhores que por aí andam. Mas são do melhor que por aí anda. Não quero ser crucificado em praça pública por todos os amantes do indie psicadélico que domina a música alternativa em Portugal. Não quero essa guerra, mas não me consigo conformar com a sobrevalorização de certas coisas. Pior fico com a subvalorização. Portanto acho que vou arriscar dizer que estes senhores, “Os Velhos”, lançaram o melhor album cantado em português no ano passado.Basta ouvir. Por ordem. Início poderoso, final pacífico. Tal como a vida, terminamos no paraíso. Sintam cada música, cada letra, cada instrumento. Que bom que é. Sintam uma certa religiosidade se forem religiosos, sintam algumas palavras do Senhor. Se não forem sintam alguma espiritualidade, seja ela qual for.

É difícil ser imparcial no mundo da música e, admito, é difícil para mim não sê-lo em relação a”Os Velhos”. Portanto e para que talvez sejam um pouco influenciados não só pela qualidade da música, mas também por mim, gostava de vos descrever este album com com pequenas imagens que tenho na minha cabeça, fruto da minha imaginação. Sou fotógrafo sabem? Procuro dar imagens a tudo na minha cabeça. Adoro fazê-lo, é tudo mais fácil. Pintar paisagens com incidência numa cor, conseguir ver o quão bonito as coisas feias podem ser ou até dar vida às músicas, a maioria das vezes faço-o sem sequer tirar uma fotografia. Vou abrir um bocadinho da minha cabeça, para vocês. E por mais estranho que pareça, tentem entrar. Para “Os Velhos” eventualmente não faça muito sentido, mas a música é isso não é? Cada um agarra-a como quer.

Vejo um Homem, com letra grande, a cantar, de mão no peito, como se de o Hino se tratasse. Emocionado. Talvez chore. Com força. Sofredor. Imagino-o a sonhar, com aquilo que tanto quer. Com esse sítio, com todo esse significado. E que permaneça esse sitio, um sítio selectivo, sem invasões. Sítios como este merecem descanso.

Vejo uma família composta apenas por mulheres, num carro, não cantam, gritam cada palavra. Todas juntas. Esqueçam qualquer tipo de melodia, deixou de se ouvir naquele momento. Há no entanto emoção, e um poema. Um poema que só soa bem gritado, com felicidade, com uma alma que ultrapassa qualquer coisa a que estejamos habituados. Ninguém ultrapassa a alma desta família.

Vejo um casal, jovem ou velho, a sair de uma praia (e desculpem-me, mas praia para ser praia tem que ter um mar bravo e água fria, alentejana de preferência). Vão os dois em silêncio, apenas com a sua música no carro ao fim da tarde enquanto o sol ainda está quente lá em cima.

Vejo discussões, grandes discussões a acabar. Com uma simples música. Com uma música que deixa os dois rendidos, completamente à deriva por cada verso, como se tivessem sido escolhidos a dedo para descrever um sonho, o seu sonho. Seja onde for. Com uma multidão ou completamente sozinhos.

Vejo guerras frias, geladas. Uma verdadeira tempestade, que faz tremer qualquer um. Até os mais fortes, os que se julgam de intocáveis. Vejo multidões a cair. Não apenas por fraqueza, mas também por conformismo do terem encontrado um pequeno abrigo. Vejo pessoas sem garra a cair. Vejo dois sobreviventes apenas. Vejo essa guerra a acabar, com um céu azul brilhante, cheio de quente, cheio de calor. O calor resolve! O calor resolve sempre…

A guerra deixa marcas. Grandes. É difícil dormir. É fácil até estarmos na cama à noite não é? Na nossa prisão. Incrível, é como estar enclausurado nessa prisão. À noite pode ser muito difícil e tão bom. Pode ser transcendente, de uma forma calma, que nos deixa mansos. Quando estamos com alguém nessa prisão. Seja a dar um ombro ou a passear naquela estrada que nos leva ao Paraíso. O tal final de que vos falei no início. A Estrada Branca.

Deixei aqui um pouco de mim. Não vos peço que ponham “Os Velhos” tal como estão no meu pedestal. Mas formem a vossa opinião, deixem-nos entrar, eventualmente, ponham-nos no vosso, de uma forma diferente. Peço desculpa pela constante subjectividade em relação à música em si, mas está aqui tudo. Não quero destacar a voz rouca e grave, as guitarras a uivar ou a bateria a marcar o ritmo de forma muito acentuada. Quero sublinhar que não é isso que os torna tão bons, não pode ser só isso, tem quer algo mais. O conjunto, toda esta panóplia metida numa panela a ferver e deitar cá para fora uma comunicação com uma pressão inacreditável. Depois de ouvirem, com calma, sem interrupções, cada música leiam isto e vejam as peças. Elas encaixam-se, uma a uma, até ao fim.

Quanto a vocês meus caros Velhos. Sejam Velhos durante muito tempo, mas não morram. Não haja descanso para vocês, continuem por favor. Com mais frequência se possível. Com ou sem maturidade. Com ou sem calma. Deitem cá para fora tudo o que têm. Desculpem-me a abordagem pouco profissional, mas eu não gosto de coisas profissionais e  não o pretendo ser.

O que eu quero é viver, e com vocês é tão mais fácil…

OsVelhos:

 https://open.spotify.com/album/2hVPzjgyHByeDmet2IS4AE

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