Lose Yourself Here

Palácio Chiado – Open House

Lisboa, 23 de Setembro

O dia não começa pela manhã. Aliás, não começou sequer de madrugada. Este dia começa mais ou menos em Janeiro na verdade. Nessa altura com chuva e frio, tudo o que podemos fazer é sonhar, e não me digam por favor que é bom apanhar com o vento na cara e sentir o fresquinho pela manhã. Não é. Não imaginam a quantidade de viagens e jantares que me imagino a fazer ao longo destes dias, tudo com um envelope inexistente encontrado no chão nestas caminhadas de música no ouvido( não tenho carta e pouco gosto de uma lata de sardinhas amarela, por isso, ando a pé). Tudo parece simples, utópico quase, mas a música eventualmente pára por causa do mau contacto dos phones. É preciso tirar a luva para resolver o problema e voltar à realidade.

Foi numa destas escapadelas que me imaginei a montar o meu próprio festival, com a música do meu telefone, com a minha música. Que sonho de repente, poder reunir os artistas que mais gostamos, conviver com eles, fazer outras pessoas felizes proporcionando apenas e só boa música escolhida por nós.

Tudo se desvanece, tudo fica nublado durante um período de tempo, quando dei por mim estava a caminho da nossa primeira entrevista. Lembro-me de estar sentado no carro do Jaime preso no trânsito da Avenida da Liberdade de máquina na mochila, o que poderia querer mais…? Há pessoas com quem nos damos bem, sensatas, realistas, amigos bons, para nos manterem os pés na Terra, mas chatos. No entanto, quando este gigante saído de uma Manga japonesa está comigo, muita coisa imaginamos, coisas realmente estúpidas também sinceramente. Mas ganham os sonhos, ganham sempre os sonhos. E nós temos muitos, muitos em comum, nunca se sabe que ideia mirabulante pode nascer. Penso, porque não divagar e apresentar este meu sonho surreal? Assim foi. Expliquei tudo o que tinha pensado e apresentei até algumas ideias mais concretas, por exemplo a data… A resposta do Jaime foi esclarecedora:

“Gosto, mas não concordo numa coisa, isso não pode ser assim daqui a tanto tempo, vamos organizar isso já este ano”

Ironia ou não do destino, foi também nessa fila interminável de trânsito que ouvi pela primeira vez Valter Lobo, pouco tempo tempo depois de ter lançado o seu último álbum. O Jaime mostrou-me o single ” Oeste” sabendo que adoro estas baladas românticas portuguesas. Nessa noite já conhecia quase tudo deste nosso amigo do norte.

Nada aconteceu até estar calor. Agora, em Julho, surge do dia para a noite uma oportunidade perfeita, Open House. Caiu literalmente do céu, para cima do pobre jantar do Jaime. A Open House é uma Associação sem fins lucrativos, que abre ao público alguns dos espaços mais emblemáticos de várias cidade à volta do planeta. Mais focada na arquitectura, mas uma oportunidade perfeita para escolher um espaço e convidar um mar de bons seres humanos com o simples objectico de ouvir boa música com o estilo mais intimista possível. As boas notícias nunca vêm sós, por isso, associada a esta oportunidade incrível veio um prazo muito curto para apresentar a nossa candidatura com garantias de grande potencial.

Somos míudos. Estudamos. Pouco tempo temos neste meio. A nossa lista de contactos era quase nula na altura. Orçamento? Pronto… Mas temos algo que poucos têm para oferecer, curiosidade e vontade de ver boa música e boa gente junta. E só a isso nos podemos agarrar. Desde do ínicio conseguimos estabelecer prioridades e ideias boas e fortes do que queríamos. Contudo, neste ponto, situação agradável para complicar todo o processo. Estávamos presos num Oásis alentejano a passar férias, com pouca rede e presos por arames devido ao pouco descanso que é estar fechados numa casa com amigos a ouvir música com volume no máximo 24 sobre 24.

Acontece que, com bons amigos e boa música talvez não precisemos de estar assim tão contactáveis, e, com o pequeno trunfo que é ter o Gonçalo Bicudo* a fazer Jams de 10 em 10 minutos, provavelmente por ter comido uma bolacha de chocolate cheia de açúcar, tudo se tornou mais fácil. Mostrou-nos algumas das demos que vão andar nas bocas do Mundo brevemente. Rendidos. Completamente rendidos a Reis da República. Instrumentalmente perfeitos, ao nível dos melhores , com um toque de uma voz que até agora tem como melhor definição o verso do João Sala( vocalista dos Ganso e Zarco) : “Não é doce, mas é como se fosse.”

Com os copos, vêm as conversas parvas obviamente e numa dessas noites fatídicas acabámos a ver Jams do Sala, versão rapper, mal gravadas num telefone provavelmente não muito funcional. Nessa mesma noite decidimos que queríamos que um dos concertos fosse uma Jam. Completamente improvisada. Bicudo confirmado, Sala e Fernão( Zarco) em mente. Fernão, ideia do Jaime, por ter ficado fascinado no concerto de Bispo no Nos Alive. E assim foi mais tarde, BBS Spaghetti…

Faltava um nome para completar o dia. Entre um tufão de telefonemas e mensagens, lá conseguimos uma ajuda do nosso eterno romântico, Valter Lobo, só ele e uma guitarra, nada mais, nada menos.

O Verão passou, Musically Speaking andou, e chega o grande momento, Setembro. Palácio do Chiado. Fios por todo o lado. O que se podia pedir mais? Nada, foi o que foi, e o que foi, foi bom, muito bom.

Queremos agradecer à Open House e ao Palácio do Chiado por nos terem proporcionado esta grande aventura. Ficam umas fotografias, mais palavras não podemos dar para descrever o quanto gostámos e nos sentimos agradecidos pela escolha tão acertada destes 3 nomes em que, Nós, vemos qualidade e complexidade musical para estar entre os melhores em Portugal.

 

*O Bicudo sofre de um grave problema genético que caso consuma uma taxa minimamente significativa de açúcar fica como se tivesse bebido 4 RedBull de penalti.

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