Lose Yourself Here

Sinestesia? Ouçam Galgo

Quantas vezes uma música vos remete para um determinado estado de espírito, um
certo cenário projetado pela mescla entre a vossa memória e imaginação? Quantas
vezes ouvem algo doce e acolhedor, quente de Verão, que vos pinta a vista com um filtro
amarelo de quem viaja pela costa e ostenta o mar? Quantas vezes aquela certa música
guardada para o conforto de um cobertor vos faz sentir que o mundo lá fora não possui
sobressaltos, é somente desvanecido, cinza como aguarela molhada de chuva? Não se
trata de um pensamento abstrato, de um devaneio criativo de quem imagina como se
escrevesse um livro: É sinestesia.

O que é? É uma comunhão de sentidos. É ver com os ouvidos, sentir com os olhos.

São cores, texturas e explosões visíveis interiormente, um sentimento despoletado pela memória da retina. É viver a vida a cores num mundo labiríntico, longe de ser a preto e branco – um perfeito exemplo de como vemos o mundo com olhos (e ouvidos) diferentes. E é por isso que não há uma interpretação universal, cada um tem a sua. Qual seria o ensaio mais perfeito para isto do que a música? Algo que por si só já desencadeia as mais complexas e delicadas sensações psíquicas, é também a matéria que com som consegue gerar algo visual, não a olho nu mas a alma nua. É aqui que entram os Galgo: um expoente de habilidade para coloração auditiva, uns criadores de paletes sonoras.

Frequentemente associados a estilos como Post Rock, Math Rock, Dance Rock ou Afrobeat, é seguro afirmar que os Galgo são tudo e nada: A sua sonoridade é própria e constatar assertivamente que se encaixam num certo molde está longe de ser a verdade. Defini-los estilisticamente não é algo assim tão preto no branco – é ironicamente esse o balanço perfeito entre o que são e o que fazem. O seu ritmo frenético producente de adrenalina prolifera um calor enérgico que contamina o corpo até à ponta dos dedos; é uma explosão de cores que se vê e sente até de olhos fechados. Numa época onde há uma abundante afluência daquilo a que podemos chamar de fácil “festival rock”, os Galgo destacam-se pela capacidade de fazer explodir entusiasmo dançante numa multidão com o dinamismo puro e a intensidade
das experimentações que os caracterizam a nível estético-composicional. É música-bolo: Camadas de complexidade instrumental, incluindo as linhas de voz simplistas que entram na equação para um propósito melódico.

A forma como uma música progride, apesar de ser segmentada e posteriormente diferente da seguinte, resulta numa determinada ligação evocando a uma pintura onde as cores se cruzam, misturam e formam um degradê coeso e perfeito. São camadas sonoras que brincam ritmicamente como se tratasse de uma roda das cores onde aquilo que é complementar salta à vista. Um quadro complexo e pormenorizado onde o plano de fundo é esfumado mas as silhuetas são marcadas.

O EP5 é um jogo entre quente e frio, noite e dia. É uma variação entre o denso e o vibrante, como na Monte Real, e o mais florido e néon de algo como a Dromomania. O álbum Pensar faz Emagrecer segue a mesma atmosfera: Um espetro de coloração frenética (Tokutum) ou ridente (Skela), um paradoxo presente entre o feroz e o divertido.

2018 é um novo ano para os Galgo e não falta muito até recebermos um novo estímulo
sensorial em formato de álbum, intitulado de Quebra Nuvens. Para já, temos o single
Bambaré que nos faz cócegas à curiosidade por ser uma continuação desta inquietação
sonora e visual. Porém, ouvir a Bambaré não chega – há que esperar pelo lançamento
do Quebra Nuvens para continuar a sonhar a cores. Até lá, aqui fica o caminho para o
outro lado do arco-íris.

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